Do prazer do cuckold

Atualizado: 4 de nov.


Alejandro DeCinti, "O Rapto de Europa", 2018.

Nunca fui ciumento. Mas também nunca gostei da ideia de outro homem se aproximar de minha mulher. Com efeito, parece-me até hoje que uma de minhas ex-namoradas me pertence e será sempre minha, como ela declarou uma vez; de tal modo que sue marido atual goza apenas o usufruto.


Não só a ideia de alguém se aproximar de minha mulher não me agrada, como me soa abominável à primeira vista. Por isso que o prazer do cuckold – do homem que gosta de ver a sua mulher dando para outros – sempre me pareceu o fetiche mais enigmático de todos, se bem que não o mais estranho, nem o mais nojento ou mais reprovável.


Pois que ele consiste, em meu modo de ver, não no gozo do objeto de prazer, mas em dar esse objeto para que outro goze dele, negando-o a si mesmo. Quando vi então esse fetiche pela primeira vez na internet, foi como assistir a um paradoxo. Nunca entendi a mente do corno, embora me agradasse ser a quarta pessoa.


Mas eu sou um cientista e um curioso, e creio que nenhum fetiche ou perversão existe sem algum fundamento. Na época em que eu namorava, pensei em fazer um experimento mental imaginando-me assistindo à minha mulher fazendo sexo com outro. Mas a ideia era tão repugnante que a afastei.


Anos depois do término do namoro, e considerando que ela foi o mais próximo de uma esposa que eu já tive, como a perplexidade ainda não tivesse passado, voltei ao experimento mental e imaginei minha ex sendo gloriosamente fodida por outro homem, procurando me colocar no lugar de um corno que assistisse a isso com deleite.


A magia então aconteceu: eu descobri por que os cuckolds acham isso excitante.


Sucede que, quando qualquer homem transa com a sua mulher, excita-o a ideia de ela ser uma vadia, uma cachorra, uma puta. Se levarmos isso ao paroxismo, qual seria então o grau máximo da safadeza de uma mulher? É lógico: dar para outro cara!


Durante o experimento, o que eu senti foi que eu jamais poderia ver minha ex-namorada numa posição mais putona que aquela, o que de certo modo me excitou um pouco, sem no entanto me despertar o interesse em ver isso acontecendo na prática com qualquer pessoa. Antes eu preferiria, se pudesse, um usufruto vitalício.

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