Minha Última Palavra Sobre Política

Atualizado: 4 de nov.


Jean-Auguste Dominique Ingres, "Napoleão I no trono imperial", 1806.

Testemunhando o quanto o meu esforço – debatendo, escrevendo e traduzindo – tem sido inútil para gerar alguma mudança observável no estado das coisas e o quanto o povo em geral é imune ao raciocínio, mais lhe resistindo quão mais lógico seja, e ainda notoriamente retardado, e tendo esse esforço só me trazido penas e inquietude e nenhum benefício, eu decidi não falar mais de política.


Será que eu vou conseguir? Será que a minha sabedoria chegará a tais alturas, a ponto de criar desapego a um assunto pelo qual sempre fui apaixonado? Talvez estar escrevendo isto já seja uma recaída! Mas devo dizer que não me furtarei a escrever sobre Ética, Direito, Economia ou Filosofia Política, quando estes assuntos forem abordados do ponto de vista científico e filosófico. Eu escrevo, é verdade, por prazer e não para mudar o mundo, mas quando se trata de algo que me irrita e rouba a minha paz de espírito, prefiro me calar e pôr alienado.


Antes, então, de fechar esse assunto, direi sumariamente as conclusões a que cheguei em meus estudos, e assevero que são conclusões inamovíveis e absolutamente certas. As duas primeiras são, em verdade, apodíticas.


Quanto à necessidade do estado – entendido como o monopólio da criação e aplicação das leis –, digo que é uma instituição inútil e perniciosa, pelo único e simples motivo que todo bem ou servido provido em regime de monopólio é pior e mais caro do que se o fosse em condições de livre concorrência. Ou isso é verdadeiro, para parafrasear Molinari, ou todos os princípios nos quais se assentam a Economia estão errados. Todos os argumentos de que existem bens que só poderiam ser providos em regime de monopólio (os chamados bens públicos) foram refutados. Não existe tal coisa como bem público. Tirando o ar e o Sol, todos os bens têm donos e servem a interesses privados, inclusive e principalmente os bens do estado.


Concluí também que o estado é injusto, pelo seguinte motivo. Todo indivíduo é dono de si mesmo – negar isso é cair em uma flagrante autocontradição – e portanto é um crime obrigar uma pessoa a participar de uma associação da qual ela não optou fazer parte. Ora, o estado é uma associação compulsória. Logo, o estado é um criminoso. De novo, ou isso é verdadeiro, ou tudo o que sabemos sobre lógica pode ser jogado no lixo.


Então surge o seguinte problema prático: se o estado não deve existir, como acabar com ele? A resposta é que o estado só existe porque as pessoas o demandam. A única forma de acabar com o estado é mudando a mentalidade das pessoas, para que se tornem, do ponto de vista psíquico, mais independentes e, do ponto de vista ideológico, voluntaristas, ou ao menos tenham a propriedade privada como o maior valor político. Assim elas passarão a se organizar em associações voluntárias, baseadas em acordos e costumes.


Mas e se isso nunca acontecer, e se esse cenário for tão distante que devamos perder as esperanças? Eu lhe respondo: já as perdi. A fonte da minha posição é o conhecimento científico, e não a fé em um mundo melhor. Ainda que eu cresse que o anarcocapitalismo não iria acontecer nem dentro de mil anos, ainda assim eu não deixaria de sê-lo, por se tratar da única posição política lógica e realista possível. Mas por que realista? Porque é a única baseada na natureza do homem e das coisas. Então por que ela já não existe? Ora, a grande maioria das relações já acontece baseada em acordos e costumes, sem um intermediário monopolista agressor. As relações internacionais sempre se deram em um contexto anarquista, pois não existe um estado para governar os países. O estado é como uma barragem que impede o fluir natural dos homens e das coisas. Porém, são os próprios homens que criam o estado; e por que fazem isso?


Sucede que o Direito de um povo deriva do conjunto dos seus valores. Assim como um povo pensa, assim é a sua organização política. O povo cria um estado porque não sabe viver sem um senhor, sem alguém que lhe ordene e diga como viver, dando uma falsa sensação de segurança. Enquanto os indivíduos forem dependentes, eles demandarão um governo, alguém que mande neles. Tão logo descubram o poder da autorresponsabilidade e tornem-se de fato, interiormente, livres, só então eles abolirão o estado. Esta última conclusão, embora verdadeira, não é completa, pois o fim do estado pode advir por outras causas que não o desenvolvimento espiritual do homem, tais como o avanço da tecnologia e novos contextos econômicos.


Minha última palavra é esta e espero que tenha ajudado alguns a tomarem sua decisão sobre como pensarão sobre esse assunto daqui para frente.

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