O Que É e Para Que Serve o Dinheiro?

Atualizado: 25 de nov.


Jules Joseph Lefebvre, "Lauretta", 1895.

Há algum tempo, logo quando eu comecei a estudar Economia, um conhecido postou algo no Facebook condenando o dinheiro, como se o mal do mundo nele residisse. Eu comentei que, se o dinheiro fosse abolido, nós retornaríamos ao escambo. Ao que ele me respondeu com uma grosseria (de cujo texto não me recordo para reproduzir).


Era um rapaz relativamente rico e inteligente. Ainda não entendo bem o que leva um sujeito bem de vida a imprecar contra o dinheiro, o lucro e o capitalismo, a quem ele deve todo o seu bem-estar material. Talvez ele se sinta culpado por ter mais que os outros e queira compensar isso afetando um falso amor pelos pobres. Ou talvez seja isso fruto da rebeldia adolescente, que os esquerdistas tão tipicamente levam até a velhice. A tese marxista, que largamente medrou na nossa cultura, segundo a qual o bem-estar de uns se deve à miséria de outros, fez com que alguns ricos se sentissem culpados por sê-lo. Some-se a isso o embuste mais recente da white guilt e você terá homens como João Gordo e Supla – que forcejam heroicamente para não serem chamados de nazistas.


Ao meu amigo faltou, não só maturidade, como também um conhecimento correto sobre o que é dinheiro: coisa que vamos dirimir aqui neste breve artigo.


Uma compreensão completa requer que visitemos a teoria de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca de Economia. Foi ele que deu a solução para o problema de como o dinheiro surgiu. Antes dele, adotava-se a hipótese de Platão e Aristóteles, segundo os quais a moeda era fruto de convenção: ou seja, que se escolhia coletivamente utilizar dada coisa como meio de troca. Porém, não é assim que as coisas sucedem. Carl Menger nos explicou o seguinte:


Dado que um homem só não consegue produzir tudo o que deseja, obriga-se a empreender trocas: donde surge o escambo. O desenvolvimento dessa maneira de comerciar leva os indivíduos a perceberem que há bens mais trocáveis que outros. O ouro, então, surgiu como um bem dessa natureza, tão valorizado que qualquer um o aceitaria como paga por outro bem, e tão durável que jamais pereceria no espaço de tempo de infinitas gerações. Essas e outras qualidades o tornaram uma mercadoria tão boa para se utilizar no processo de escambo, que arvorou-se em meio comum de troca. Quando algo se torna assim amplamente trocável, aí que vira moeda – ou dinheiro.


Perdoem-me os economistas convencionais, mas aqueles papéis coloridos impressos do Banco Central não são dinheiro, e sim falsificação.


Com o tempo, ficou difícil guardar tanto ouro: donde surgiram bancos. Estes seriam um dos maiores inventos da humanidade, se não tivessem sido corrompidos. Seu papel primeiro era o de guardar o ouro para seus donos, quando muito emprestando essa riqueza a juros a quem quisesse tomá-la para investir, e, grosso modo, dando parte desse lucro aos legítimos donos da riqueza. Vejamos agora como esse sistema foi corrompido. Sucede que não convém transportar muito dinheiro em carroças, o que originou o invento das notas resgatáveis: um documento que equivalia a certa quantidade de dinheiro presente no banco. Se a nota dizia haver mil quilos de ouro no banco, lá de fato esse ouro estaria, à prova de qualquer testemunho. Foi assim que surgiu o dinheiro: uma nota representativa de uma quantidade real de riqueza. Agora pergunto ao leitor: em que consistiria emitir-se uma nota que dissesse haver mil quilos de ouro em um banco, havendo no entanto só quinhentos? Que é isso senão roubo? Fraude? E das mais sutis ainda por cima? Se não é precisamente uma falsificação de dinheiro, o que é então? Pois é assim que os bancos fazem hoje com o aval da lei. Segundo os economistas, os bancos não são obrigados por lei a ter em suas reservas a mesma quantidade de dinheiro que alegam ter em seus títulos e documentos. E a isso chamam reservas fracionárias.


Foi esse o triste caminho pelo qual o homem levou o dinheiro: o da fraude. Não tivesse incorrido nessa ignorância, o dinheiro evoluiria de modo diferente. Surgindo uma mercadoria altamente intercambiável a partir de sucessivos escambos, formar-se-ia um meio comum de troca, chamado dinheiro. Depois, os bancos guardariam esse dinheiro e o emprestariam a investidores, percebendo e pagando juros. Com o tempo e a globalização, mais moedas concorreriam livremente no mercado como meios de troca, fazendo surgir novamente aquelas que cumpririam melhor esse papel. Por fim, atingindo sua tendência final, surgiria uma moeda única no mundo, facilitando e acelerando sobremodo os intercâmbios comerciais. Assim deveria ser a história da moeda, segundo o raciocínio de Hans-Hermann Hoppe.


Com aquele desvio, porém, se os governos se resolvessem em um só, que teria o controle global da moeda, então veríamos o pior cenário possível. Pois, ao invés de ser uma moeda surgida de sua conveniência e utilidade para todos, seria uma moeda outorgada segundo a sua conveniência e utilidade para o governo, e a qual ele continuaria falsificando e inflacionando, como faz hoje, só que com prejuízos muito maiores por ser em escala global.


Em um cenário de moeda única controlada por um estado global, não haveria para onde correr. Se usam-se por exemplo hoje o bitcoin e o dólar para evadir-se à corrosão do real, havendo uma só moeda de curso forçado essa fuga se tornaria impossível.


A única forma de acabar com esse sistema de falsificação de dinheiro em larga escala é abolindo o Banco Central e suas moedas de curso forçado e retornando a um livre mercado de moedas que concorram entre si. Somente assim é que deixaremos de ter nosso capital diluído pelas sutis e engenhosas artimanhas do governo.

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