Pornocracia - Uma Sátira em Homenagem à Mulher Moderna

Atualizado: 11 de set.

[Poema extraído do livro de poemas Parnaso Devasso, de Cândido Magnus]


William-Adolphe Bouguereau, "Ninfas e sátiro", 1873.

IV


Diz, escreve e no dorso tatua

Carpe diem levianamente,

Sem saber o que o dito exprime,

Crendo ser latim para “cu quente”.

E, em vez de colher o dia em flores,

Cava angústias e planta rancores.


A sereia o canto lança e o olhar-

-Rede a cair sobre a sala inteira,

Mas preciso e certo é feito arpão

O olhar desleal dessa sereia.

O frio do olhar-arpão lançado

Queima... e depois mata congelado.


“Sou tua” dizendo com o corpo,

Sorrindo submissa e sibilando,

Com o coração já vai lá longe,

Néscio! do teu, que lá vai, já amando...

Ela não quer ser tua consorte,

Mas te seduziu por puro esporte.


VI


Vede, de mãos dadas passeando

Ao ritmo segundo da sonata

Aquele casal é – tão comum –

Do bananão com a mina chata.

Ao que ela diz vai o serviçal

Dizendo: “É mesmo?!”, “É sério?!”, “Legal!”


Na mesma via, em sentido oposto,

Vede, passeando a passo preste,

O casal insano e consagrado

Da moça banal co’o cafajeste.

Com um pouco de grito e porrada

A calcinha logo cai molhada.


VII


O parceiro só de alguns encontros,

Descartável, líquido, instantâneo,

Precisa ser muito nos haveres

E bem pouco ter no vão do crânio;

Que quanto mais perto estiver do alto

Mais longe estará do pé do salto.


Fotógrafo dedicado seja

Das viagens longas que já fez,

E mostre também que come fora

Pelo menos UMA vez por mês.

Eis o sistema que hoje funciona

Com a moça nova até a trintona.


Porém a novinha cobiçada

Confunde e atormenta o próprio diabo,

Pois seu sistema é nenhum sistema,

Em seu sentimento hipervolátil.

Não sabe o que é, não sabe o que quer –

Filha do Caos, a quem faz mister.


Embora linda e embora lindíssima,

É vista com rudes maltrapilhos,

Magrelos, drogados e merdões,

Perigando com os quais ter filhos.

Ama provocar a alheia dó

E, no morros, baforar loló.


VIII


Sob os panos da roupa colada,

Sob a máscara de pó na face,

Saco bípede de carne e pele

Sem tradição, elegância e classe.

Passa nariz em pé, venerada,

Sendo meio burra até calada.


Do outro lado da rua, fedendo

A cigarro, bêbada e mulamba,

A jovem traída pelo pai

Aprende a etiqueta de caçamba.

Bebe e xinga e fala putaria

Imitando os homens que critica.


IX


Nos anos gloriosos da beleza,

Onde pele suave e ricas pomas,

A gatinha bebe e sai de graça

E a dedo escolhe as suas caronas.

Goza do viver dos milionários

Porque dispõe de um milhão de otários.


Tanto abusa do seu auge efêmero,

Antes de chegar da forma o inverno,

Soberba exalando ricamente,

Que se diria o auge ser eterno!

Como viver fosse sempre bela,

Rejeita o varão de bem que a anela.


Mas pouco dura, e logo se vê

Da beleza jovial a aurora,

Que enruga a pele e a soberba faz

Cair como a bunda cai agora.

Enfim, preterida é, nas alcovas,

Por mulheres dez anos mais novas.


Vendo assim que o seu valor venal

Caiu e enjeitada foi na orgia,

À maneira do camaleão

Agora ela quer véu e família,

Valendo-se do trouxa frustrado

Pra sustentar o filho bastardo!


X


O jovem perdido, temeroso

De ser acusado de mil nomes,

Tristemente só escuta gemidos

De mulher agora pelos fones.

Videogames e pornografia

Preenchem e completam sua vida.


Um outro, seguindo outra vertente,

Quer se melhorar, o seu valor

Aumentando por novas virtudes

De corpo e mente e de vencedor,

E nem assim ganha o que compete,

Porque não virou o CR7.


Em desespero, um bando é flagrado

Atrás das escuridões secretas

Da desesperança e da amargura,

Pagando os carinhos das bonecas...

“Parece que nem tem dente!”, um diz,

E um outro: “É só assim que eu sou feliz!”


[...]


[Leia o poema completo e muito mais em Parnaso Devasso]

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