As Fabulosas Vantagens da Democracia: Reflexões de um Político

Atualizado: 11 de set.


Jacques-Louis David, "A Morte de Sócrates", 1787.

Nunca gostei de trabalhar, e nunca demonstrei talento para nada. Na verdade sinto uma inclinação por enriquecer à custa dos outros, mas sou acometido por uma violenta covardia, que me afasta do roubo direto como profissão. O furto tampouco me valeria para o sustento, vez que se trata de uma arte astuciosa que exige, caso eu a queira como ofício, alguma agudeza de raciocínio. Sou prodigioso em mentir, porém. Em enganar, dissimular, fingir, convencer e afetar grande carisma. Busquei com afinco um meio de subsistência no qual eu me enquadrasse perfeitamente junto com essas minhas qualidades. Vi que seria execrado de qualquer ambiente digno, e só encontrei um único lugar adequado para mim, onde minhas baixezas se arvoram a virtudes e onde eu posso erigir carreira fortunosa: a Política.


Com efeito, integrar o Estado é a única alternativa para biltres fracassados como eu, que, em compensação, são aí recebidos com um suntuoso tapete vermelho. Nenhum meio de locupletar-se, para aqueles homens livres de escrúpulos, é mais auspicioso que o meio político. Do alto da minha torpeza, logo captei essa oportunidade. Mas antes de procurar integrar-me ao aparato estatal, dei-me a algumas reflexões.


Tenho sorte por estar numa Democracia. Em um sistema aristocrático ou monárquico, seria praticamente impossível eu ascender a qualquer cargo importante que me fizesse rico. Numa Ordem Natural, anárquica, eu seria facilmente ostracizado. A democracia ostenta, de fato, grandes vantagens para aqueles que pretendem viver da patifaria.


Alardeiam-se muitas características como se pertencessem à democracia, mas em verdade ela se funda em tão somente quatro dogmas: o direito de votar, o direito de ser votado, o princípio da igualdade do voto e o princípio da maioria. Arranjo nenhum poderia me convir mais.


O direito de se candidatar já abre as portas do poder para toda sorte de canalhas, muito ao contrário do que sucede num livre-mercado, na preponderância dos meios econômicos, ou numa aristocracia. A igualdade do voto, por seu turno, significa que o voto de um vagabundo ou de um analfabeto tem valor idêntico ao de um intelectual ou prolífico empreendedor. Esse igualitarismo democrático somado ao princípio da maioria forma uma arma magnífica em meu proveito. Já que o voto de todos tem igual valor, apenas uns poucos idiotas irão gastar tempo investigando sobre as propostas e a idoneidade dos candidatos a cargos estatais. Isso porque toda a energia dedicada a esse estudo é peleja ingrata: seu voto “consciente” continua sendo numericamente insignificante. Assim, como a maioria sempre será de ingênuos desinformados e gente em busca de sugar mais do governo, ela votará naqueles que oferecerem mais gratuidades ilusivas. Esta consequência já resulta, em seguida, numa outra grande vantagem da democracia: seu avanço para um socialismo cada vez melhor (para mim).


Em condições normais, expressar meu anseio pelo controle e posse das propriedades dos outros iria me render olhares oblíquos e forte censura. Mas na democracia é o oposto. Eu posso declarar ferozmente em público meus desejos mais ignóbeis de controle sobre a vida e a propriedade alheias que recebo então aplausos! E não somente posso como devo fazer isso, pois que estarei representando uma horda inteira de emoções contidas das massas, liderada pela inveja e pelo desejo de poder. O homem que se envergonharia caso sequer pensasse em roubar seu vizinho para pagar a escola de seu filho agora não recua nem um passo ao ouvir essa ideia, com outras palavras, saída da minha boca! A democracia fomenta o exercício da inveja, apresentando-o, porém, sob roupagem atraente. A maioria, então, esmaga a minoria, na ânsia de usurpar sua propriedade, ainda que no fim das contas todos caiam no abismo. Desse modo as pessoas votam naqueles que prometem mais coisas de graça, delegando mais atribuições ao estado, agigantando-o e, assim, agigantando-me a mim também!


Instrumentos velhacos como o referendo, o plebiscito e o voto compõem o ardil em que consiste a democracia – esta invenção sublime! Incutam no gado a firme ilusão de liberdade e participação no poder. Eu não havia reparado, até agora, o quão ridículo é quando a população amotina-se nas ruas para proferir em uníssono os mantras da sua fé demente: “Mais educação, saúde e segurança!”, “Chega de corrupção!” etc. É burlesco porque a população acredita sinceramente que está praticando algo inconveniente para o Estado. Os governantes, na verdade, regozijam-se, sabendo que granjearam então ótimo ensejo para roubar mais e aumentar seu poder.


Ora, roubar? Mas eu não havia dito que sou covarde demais para isso? Na realidade, trabalhar no Estado é, de qualquer maneira, viver do roubo e da espoliação. Trata-se, contudo, de uma espoliação sofisticada, muito diversa da praticada por assaltantes fortuitos. Estes roubam um sujeito provavelmente uma vez só, tomam-lhe o que ele leva consigo naquele momento e depois vão embora. O roubo perpetrado pelo Estado, por sua vez, do qual tenciono participar, é sistemático, institucionalizado e perene. Decerto um expediente muito superior. Eu não preciso nem exercer a força diretamente contra minhas vítimas; para isso me vale a polícia, instituição descerebrada, pronta para seguir as ordens mais ignominiosas sem questionar: submissão absoluta às legislações!


Mas é no consentimento que reside o principal elemento para o sucesso da dominação estatal. O roubo não persistiria sem que esse arranjo coercivo não encontrasse suporte na opinião pública. Então é bastante fácil: em geral os súditos pagam os impostos, e os que não pagam recebem ameaças de agressão até que cumpram o seu dever.


Para a minha sorte, a opinião pública já está conquistada, isso não me dará nenhum trabalho. Com irreprimível diligência, os Estados ao longo da história recrutaram uma massa de intelectuais que, como Hobbes, Locke e Rousseau, incrustaram em seus livros sutis ardilezas para persuadir o público de que o Estado é necessário e inerente à ordem social. Seu legado de ideias fraudulentas prospera até hoje, e até hoje trouxas acreditam que assinaram um contrato fantasmagórico pelo qual abriram mão de serem livres!


Portanto, é bastante acertada minha decisão: integrarei a massa dos parasitas, com eles me ajuntarei como a amigos, mas fingirei disputa, para ludibriar o povo, que crerá que lutamos por seus interesses ao invés dos nossos. Viver do suor alheio, enquanto brinco com meus amigos e festejo em Brasília! Isso sim é vida!


[Escrito em 2015]

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