Um Bilionário Ensina Sobre Princípios

Atualizado: 11 de set.


Ray Dalio, rico virado no Jiraya

Um bilionário americano chamado Ray Dalio escreveu um livro com título bastante soberbo para um mero livro de autoajuda: Princípios. Enquanto o título pode sugerir um conteúdo filosófico ou, no mínimo, de natureza fundacional relativo a algum conhecimento, trata-se na verdade da exposição dos princípios de vida e de trabalho seguidos por ele – os princípios que levaram a sua empresa ao cume do sucesso.


Schopenhauer dizia que livros são como espelhos: um asno que se lhe ponha diante não verá um anjo. Talvez por isso eu não tenha achado nada de mais no livro, exceto duas coisas que quero compartilhar com você.


A primeira coisa é que Ray Dalio começa dizendo que você deve pensar por si mesmo, o que não é nada óbvio e possui grandes implicações. Essa talvez seja a mais importante lição do livro, que faz o leitor questionar os paradigmas nos quais foi criado.


Se eu devo pensar por mim mesmo, logo devo duvidar da veracidade de toda religião, toda filosofia e toda ideologia política que já me foram ensinadas, para só depois, a partir de algum método que eu julgar válido, reconstruir minha teoria das coisas e do mundo. Felizmente, eu já nasci com esse dispositivo incrustado em minha alma, jamais aceitando qualquer coisa por certa sem questionar. Essa bênção sempre foi também, no entanto, uma maldição para mim, já que a extrema abertura de mente por vezes degenera em fraqueza de espírito. De fato, a única coisa que dá força a um homem é a convicção: veja que qualquer tese, por mais estúpida que seja, é capaz de arrastar um bando, se o líder tiver convicção suficiente. E a ausência de convicções, se por um lado contribui imensamente para a melhoria contínua, por outro boicota a autoconfiança, e a palavra sai da boca sem a nota da autoridade.


Que se deve pensar por si mesmo não é nada óbvio porque o costumeiro é aceitar, na religião, aquela em que se foi criado; na política, aquela que mais apela aos sentimentos; e, na filosofia, a que justifica as próprias inclinações. Colocar o amor à verdade acima do interesse pessoal é um dom que Deus concedeu a poucos.


No entanto, Ray Dalio não defende uma postura propriamente científica e filosófica perante o mundo. O ensinamento dele é que nós descubramos os nossos próprios princípios com base no que queremos da vida e no que é necessário para atingi-lo. Não há necessidade alguma de investigar o fundamento da realidade, mas apenas de reajustar as nossas ações a partir dos erros que cometemos, para que não os cometamos de novo e consigamos construir um modelo eficiente de tomada de decisão. Ray Dalio, afinal de contas, tem aquilo que falta à maioria dos filósofos: o pragmatismo.


Mas mesmo essa abordagem requer, no dizer de Dalio, “abertura radical de mente” e “hiper-realismo”, de tal modo que, se você for muito apegado a ideias políticas, filosóficas e religiosas, não conseguirá progredir. Nada estorva mais a evolução do saber do que um dogma, que se pode definir como uma crença aceita sem questionamento.


Imagine viver a vida tentando extrair da experiência os padrões de comportamento que se coadunam com os desejos e a natureza de si mesmo, abrindo mão para isso dos ensinamentos moralistas e religiosos que lhes foram passados pelos pais e pela igreja. Isso por si só já representa um enorme trabalho. Requer discernimento, espírito investigativo, abertura radical de mente e coragem.


Aqueles que não têm coragem ou não sabem que isso é possível ficarão presos a uma principiologia pré-pronta, como as das religiões. Só que esses modelos de normas, embora sejam úteis até certo ponto, são engessados e não contemplam a singularidade do indivíduo, pretendendo ser uma solução única para todos os seres, como uma loja de roupas que só vendesse camisas em tamanho M. Em alguns cai bem; já outros parecem deformados – a isso chamando santificar-se.


Ray Dalio portanto nos estimula a pensarmos por nós mesmos, vindo a descobrir o que nos convém fazer e o que nos convém evitar. A partir dessa lição ele começa a apresentar os seus próprios princípios, aqueles que ele passou a adotar em sua vida pessoal e no trabalho. Desse conjunto, o que mais me chamou a atenção foi o da sinceridade radical, que é a segunda coisa sobre que eu gostaria de compartilhar com você.


Se em todo livro há pelo menos uma coisa que contribui para a nossa formação, nesse foi o princípio da honestidade radical que realmente me mudou. Interessantemente, eu já trazia esse princípio comigo sem o saber, sendo sincero a ponto de muitas vezes causar desconforto nas pessoas. Meu problema, então, sempre foi saber se eu estava agindo corretamente ou se deveria adotar um comportamento mais político. Ser falso e dissimulado sempre me pareceu nojento, mas ser sincero o tempo todo pode causar inconvenientes. Então quando eu li que esse era um dos princípios adotados por Ray Dalio tanto em sua vida pessoal quanto em sua empresa, eu tirei um peso das costas e me senti aliviado.


Naturalmente, como aprendi com Swami Satchidananda, nosso discurso deve ser verdadeiro e agradável, não só verdadeiro. Daí que me empenho em ser honesto sem ser rude, omitindo a minha opinião quando o dizê-la é desnecessário.


Há pessoas que se admiram com a minha sinceridade, até mesmo quando não creio estar dizendo nada de mais. É que as pessoas costumam ser tão hipócritas, mentirosas, falsas e covardes, que se surpreendem quando alguém não tem medo de se mostrar como é. Ainda assim, eu gostaria de ser muito mais autêntico do que sou, e não o faço em parte por covardia também, em parte por ainda estar aprendendo a calibrar a sinceridade para que não saia imponderada. Há um lugar tímido entre a sinceridade radical, a reserva pessoal e o respeito aos outros que é difícil de encontrar, mas existe.


Nunca fui recriminado por ter agido com dissimulação e politicagem, antes tendo sido congratulado, mas por diversas vezes fui censurado por ter dito a verdade. E eu digo a você: a coisa que eu mais odeio é o ódio à verdade. Um povo que pratica mais a política do que a honestidade pertence a uma estirpe muito baixa.


Quando soube, então, que a sinceridade radical era um princípio tão caro a um homem de tão grande inteligência e sucesso, recebi uma cura, e passei a exercer a mesma sinceridade de sempre, tentando contrabalançá-la entretanto com um discurso compassivo.


O motivo pelo qual Ray Dalio consagra esse princípio é que, quando se diz a verdade, promove-se o crescimento mútuo. Em uma empresa, a cultura da transparência traz os problemas à luz, pelo que podem ser discutidos e sanados, levando a empresa a progredir com maior fluidez. Jogar as questões para debaixo do tapete é como alimentar uma panela de pressão que a qualquer momento explodirá para todo lado. Já na vida pessoal, segundo Ray Dalio, a sinceridade é importante para nutrir “relações relevantes”, considerando que você quer ser amado por quem você é e não por quem finge ser.


O único valor que para mim supera a verdade é a liberdade – embora pense que esta seja corolário daquela. Eu amo todas as formas de ser livre, e levei isso a tal ponto que vi-me rumando para lugar nenhum. Sem limites, nada se constrói. Quando estabelecemos meios e fins, estamos necessariamente nos limitando para conseguir o que queremos. E uma das formas de nos limitarmos é adotando princípios sob os quais nos conduzir. Daí que a única liberdade que existe é a de escolher os próprios limites. Paradoxalmente, não há liberdade sem limitação. Escolho os limites dentro dos quais viver, para assim construir a vida que desejo. Sobre isso leia o artigo anterior.


E, de fato, eu descobri recentemente que preciso de princípios, sem o que fico solto no espaço como um balão soprado pelo vento. O grande insight que Ray Dalio me proporcionou foi que, isso não obstante, eu posso e devo escolher os meus princípios. Mas estes terão por fundamento duas coisas: a) a realidade das coisas e b) minha própria natureza, sendo dessa forma instaurados sob medida.


Esses princípios devem se coadunar com a minha natureza e os meus objetivos, mas seriam redundantes se fossem tão enraizados que eu não precisasse me lembrar deles para os praticar. Por exemplo, o amor ao estudo é algo tão ínsito a mim, que seria supérfluo consagrá-lo como princípio, tendo isso já alcançado o status de valor. Um valor é algo sem o que não se vive. O cuidar da saúde também é um valor para mim, sendo desnecessário sequer me lembrar disso, porque já o faço sem esforço. Mas há coisas que não funcionam para mim, e mesmo assim eu as faço por mau hábito, devendo eu portanto estipular um princípio pessoal que as proíba; e outras que me caem muito bem, mas que por desvelo não cumpro, devendo eu igualmente consagrá-las como normas particulares.


Então, quando você se sentir seguro, abandone os princípios oriundos de um modelo padrão e descubra os seus.

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